jiujitsu

Os mais fortes

Por Magdalena Bertola

Eram quatro garotos de, no máximo, dez anos cada. Roupas velhas, surradas, chuteiras sujas de barro. Um deles, todo ralado, do rosto à canela, provavelmente por uma queda de bicicleta, ou mesmo do futebol. Eram do bairro ali mesmo, todos nascidos e crescidos, se é que se pode dizer que garotos de dez anos são crescidos, no mesmo lugar, ainda brincando na rua, pois a falta de dinheiro das famílias não trazia tantos luxos tecnológicos.

Naquela noite, avistaram uma portinha que dava para uma escada, ao lado de uma padaria. De longe, leram “Academia de Jiu-Jitsu, Muay Thai e Karatê”. A curiosidade crescia a cada passo, e depois, a cada degrau. Lá no alto, após a recepção, um espaço pequeno, somente com um tatame e um octógono. Mas, para aqueles garotos, aquele era um mundo todo novo, inexplorado. Ficaram por alguns segundos fitando o que aqueles homens e mulheres faziam naquele colchonete gigante. Socos, chutes, pulos. Era tudo novo e diferente, chegava a ser incrível. Os olhos brilhavam.

Um deles exclamou: “eles tão lutando boxe!”, ao passo que outro completou, virando os olhos juvenis para o mestre da academia, “Tio, a gente quer lutar boxe!”. O sensei somente disse, “Muay Thai”. “O que é isso?” perguntou o terceiro, “É isso que eles estão fazendo” foi a resposta do treinador, apontando para as pessoas no tatame. O quarto então, não se conteve, e com toda a propriedade que qualquer garoto de dez anos tem, exclamou, “Mas isso que eles tão lutando é boxe!”. Vitória dos garotos, o sensei não mais discutiu, limitou-se a dizer para que eles parassem de pisar com os tênis no tatame.

As vozes finas e altas ecoavam na academia, a cada barulho de chute, ouvia-se uma exclamação de surpresa dos garotos. As mãozinhas tocavam o tatame, alguns socavam a Punching Ball, outros se atreviam a encostar a ponta da chuteira no tatame sem que o sensei visse. Mas, logo foram tocados dali pelo mestre, que estava perdendo sua concentração com tamanha arruaça juvenil. Desceram, então, as escadas, meio cabisbaixos, um pouco bravos, mas, ao mesmo tempo, achando graça na arte aprontada.

Muitos dirão a esses garotos, ao longo de suas vidas, que não conseguirão nada, que não serão ninguém. Porém, o que é mais forte que a imaginação de uma criança? O que é mais forte do que sua ambição em conseguir ser o que querem ser?

Todos agora se imaginavam dando chutes e socos, vendo o suor pingar da própria testa no tatame enquanto faziam flexões. Nas suas mentes, se viam chutando e destruindo sacos de pancada, usando luvas, sendo fortes. Nenhum deles sabia nada sobre lutas, mas todos já tinham visto alguma vez algo na televisão. Todos sabiam que, se fosse para a TV, podia-se ganhar um tipo de cinto, grande, brilhante, que dizia que você era o cara mais forte do mundo. Estando lá, você seria entrevistado por jornais internacionais, falaria em outras línguas, ganharia o cinturão. Seria reconhecido como uma grande pessoa, como celebridade, como alguém em quem se inspirar.

Nenhum deles saiu dali de cabeça vazia. Naquela noite, aqueles quatro garotos deixaram de ser apenas garotos da periferia. Naquela noite, todos eles, eram os homens mais fortes do mundo.

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