Mês: fevereiro 2014

Quatro letras, e muito medo

Por Magdalena Bertola

Medo. Pequena palavra formada por apenas quatro letras e duas sílabas. Duas pequenas sílabas que carregam enorme significado. O medo assusta. Têm-se medo de ter medo. Ao se ter medo, sente-se dor, palavra, menor ainda que a anterior, que carrega em si enorme peso.

Sente-se dor ao ter medo por que, o medo em si traz angústias, tristezas, ansiedade. Sente-se o coração apertado, o suor frio por vezes molha a palma das mãos, o estômago embrulha. Tudo isso é um tipo de dor e, ninguém, absolutamente ninguém, deixou de sentir medo em algum momento da vida. Quando se é criança, o monstro embaixo da cama ou dentro do armário é tão assustador quanto um assassino. Alguns sentem medo do escuro, outros da guerra instalada em seu país, medo das bombas que caem no horizonte, riscando o céu e produzindo um clarão, que poderia ser bonito, não fosse carregado de tamanha destruição.

O medo que sobe pela espinha, como uma mão gélida, cadavérica, agarra teu crânio, gelando a nuca e fazendo os olhos saltarem da órbita. Paralisado, sem respirar. Milhões de pensamentos passam rapidamente pela cabeça, como um filme acelerado sem, no entanto, causar nenhuma reação. Se tentamos reagir, é como se o mundo estivesse em câmera lenta. Enquanto tentamos mover o corpo, um milímetro que seja, o fantasma da menina da corrente da internet que você não passou para 25 amigos, já fez algo inimaginável, mesmo que tenha sido apenas em pesadelo.

Medroso é um xingamento. Quem é chamado de medroso se sente impotente, triste, covarde. Mas, somos todos medrosos. Seja por perder o emprego, o amor, ou até mesmo do trovão produzido por tão linda nuvem que outrora fora branca, como algodão, e agora, negra e pesada, traz os indícios de tempestade aterradora. Sente-se medo ao fazer uma prova, ao encarar alguém maior, ao ser chamado na sala do chefe para uma conversa. Sente-se medo até mesmo de ir ao banheiro novamente quando se está doente, após tantas visitas ao trono de louça.

Sentimos medo do frio, da fome, da negação, de mudar de vida, de mudar de opinião. Nossas vidas giram em torno do medo do que possa, ou não, acontecer. Vivemos enjaulados em nossos pensamentos, rodeados e movidos por ele. O medo pode ser bobo, infantil, incurável, mas nem sempre é imprestável. Por vezes perdemos oportunidades por medos bobos, por medo de não conseguir, de não dar certo, pelo simples medo de tentar e não ter o resultado desejado. Porém, não é imprestável o medo que te faz saber que, se beber e dirigir poderá bater o carro, que se não estudar, reprovará, que, se puxar o gatilho, não haverá volta.

Corajoso não é aquele que não sente medo, é aquele que, apesar do medo, segue em frente, sempre sabendo o que pode vir. No fim, seria o medo, desnecessário? Não digo o medo aterrador, causado por violências de todos os tipos, mas o medo que não nos deixa ser inconseqüentes. Seria, esse, desnecessário? Confesso, tenho até medo de um mundo sem medo.

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