Mês: janeiro 2014

I’m feeling good in da jungle!

 

 

 

 

 

 

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Por Magdalena Bertola

 

Hoje meu dia foi marcado por uma grande e forte nostalgia, isso porque hoje foi a primeira vez que meus sobrinhos, Enzo, de seis anos e Dante, de um e meio, foram ao cinema. Curiosamente, o primeiro filme deles na telona foi Tarzan, o mesmo filme que eu vi quando fui à salinha escura – que hoje em dia é salona – pela primeira vez, em 1999. A diferença é que, como boas crianças nascidas pós 2000, meus lindões – tia coruja, me julguem – já viram a selva africana e os pulos do homem-macaco em 3D. Se bem que, o nome do filme já nos remete a isso, pois “Tarzan: A evolução da lenda” é, nada mais nada menos, do que dizer “OI! AGORA SOMOS MODERNOS E EVOLUÍMOS”. É, pois é, mas mesmo com esse título, minha surpresa (e, não mentirei, excitação em rever o meu querido Rei da Floresta) me fez abrir um sorriso quando a Dona Fátima, ou como eu e meus irmãos chamamos, Mama, me disse que íamos ver – no caso de moi, rever – Tarzan.

Na realidade, não era para eu ter ido ao cinema hoje, eu nem sequer sabia que havia uma nova versão do Tarzan, toda modernosa, passada numa época em que já existem helicópteros, grandes multinacionais modernas e garotas de cabelos e shorts curtos, além de câmeras digitais. O filme em si é bem diferente daquele Tarzan que eu vi quando criança, que se passava numa época de aristocratas e da exploração das florestas africanas – que, convenhamos, nunca acabou -, o moderno, ao invés de ser um bebezinho que nem engatinhava, filho de lordes ingleses exploradores é, na verdade, um garoto de uns seis ou sete anos, herdeiro de uma grande corporação estadounidense. Ah, e os gorilas não falam, nem a Cheetah, o que, incrivelmente, não fez falta (Sorry, querida Cheetah, é a verdade). Apesar de todas as diferenças, eu me senti novamente com dez anos de idade ao ver o garoto-macaco e a Jane moderninha (e loira). Quase chorei em algumas cenas e, apesar do óculos 3D e da mudança na história, não pude desgrudar os olhos da tela (com relutância fui ajudar a Mama a comprar as pipocas, já nos quinze ou vinte minutos de filme porque chegamos atrasadas).

Ah, como é bom voltar a ser criança, mesmo que seja por alguns minutos. Hoje, naquela sala de cinema, voltei a sonhar com viagens à África, com uma vida nas árvores, com voos em cipós e toda a adrenalina que deve existir ao ser uma criança criada numa floresta e, também, senti toda a emoção do primeiro amor daquelas personagens, tanto quanto eu senti quando vi o filme pela primeira vez.

Tarzan é, sem dúvida, juntamente com Mogli e Aladin, o meu desenho animado preferido, ver a sua evolução e ver como ele foi adaptado às crianças modernas me faz, apesar de tudo, feliz, porque dessa maneira eu mesma pude voltar a ser criança, esquecer os problemas da vida adulta, o cansaço do dia-a-dia, as responsabilidades. Ali, naquela cadeira e com aqueles óculos horrorosos fui absorvida num mundo maravilhoso, cheio de perigos e mistério, fui levada a lugares distantes, conheci um garoto de olhos verdes (ai, até lembrei do meu bofe!) que perdera a família e ganhara outra, totalmente diferente, longe dos doces, dos parques de diversão, dos shoppings e de todos os vícios da vida moderna e que, ainda assim, tinha uma vida feliz em meio à selva, junto com animais considerados irracionais, mas que demonstravam amor incondicional.

Naquela selva, conheci homens mesquinhos, o poder do dinheiro, o lado sombrio da humanidade. Não que não a conhecesse, afinal né, vamos combinar que com todos esses políticos fica um pouco difícil não conhecer o lado sombrio das pessoas, mas é incrível ver como uma película, mesmo infantil, que não é para pessoas como eu, da geração que se diz jovem, mas tem tantas atitudes de velha. Mesmo que seja para as crianças que já possuem smartphones e tablets, que usam óculos 3D com a maior naturalidade, ainda assim, essa experiência foi enriquecedora no meu dia. Saí da sala de cinema com sorriso de orelha a orelha e viajando nos meus próprios pensamentos. No fim das contas, não foi apenas o meu sobrinho que ficou pulando para imitar o Rei da Selva.

Agora estou aqui, de volta à minha singela casinha no subúrbio de São Paulo, mas meu cérebro, ah, esse tá pulando de cipó em cipó, surfando em troncos cheios de limo e lutando contra feras selvagens. Ah, Tarzan, como eu senti sua falta!

E digo mais, se daqui 15 anos fizerem uma nova versão de Tarzan (ou de qualquer outro filme da minha infância), para a próxima geração, eu assistirei novamente, e se daqui a 30 anos, tiver outro, mesmo aos 45, assistirei e com toda a certeza, vou segurar o choro, vou rir e passarei alguns dias sonhando com aventuras na selva. Isso porque, chega uma hora que fica chato ser adulta e, o que mais precisamos, é voltar a ser criança e passar uns dias sorrindo por isso.

E você ai, ô jovem velho, vá ver um desenho pra ver se desestressa! Gente chata!

 

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(Só pra constar, a primeira foto é o Tarzan da minha infância, e a últim foto é o novo Tarzan, gatééénho de olhos verrrrrrdes!)

Os mais fortes

Por Magdalena Bertola

Eram quatro garotos de, no máximo, dez anos cada. Roupas velhas, surradas, chuteiras sujas de barro. Um deles, todo ralado, do rosto à canela, provavelmente por uma queda de bicicleta, ou mesmo do futebol. Eram do bairro ali mesmo, todos nascidos e crescidos, se é que se pode dizer que garotos de dez anos são crescidos, no mesmo lugar, ainda brincando na rua, pois a falta de dinheiro das famílias não trazia tantos luxos tecnológicos.

Naquela noite, avistaram uma portinha que dava para uma escada, ao lado de uma padaria. De longe, leram “Academia de Jiu-Jitsu, Muay Thai e Karatê”. A curiosidade crescia a cada passo, e depois, a cada degrau. Lá no alto, após a recepção, um espaço pequeno, somente com um tatame e um octógono. Mas, para aqueles garotos, aquele era um mundo todo novo, inexplorado. Ficaram por alguns segundos fitando o que aqueles homens e mulheres faziam naquele colchonete gigante. Socos, chutes, pulos. Era tudo novo e diferente, chegava a ser incrível. Os olhos brilhavam.

Um deles exclamou: “eles tão lutando boxe!”, ao passo que outro completou, virando os olhos juvenis para o mestre da academia, “Tio, a gente quer lutar boxe!”. O sensei somente disse, “Muay Thai”. “O que é isso?” perguntou o terceiro, “É isso que eles estão fazendo” foi a resposta do treinador, apontando para as pessoas no tatame. O quarto então, não se conteve, e com toda a propriedade que qualquer garoto de dez anos tem, exclamou, “Mas isso que eles tão lutando é boxe!”. Vitória dos garotos, o sensei não mais discutiu, limitou-se a dizer para que eles parassem de pisar com os tênis no tatame.

As vozes finas e altas ecoavam na academia, a cada barulho de chute, ouvia-se uma exclamação de surpresa dos garotos. As mãozinhas tocavam o tatame, alguns socavam a Punching Ball, outros se atreviam a encostar a ponta da chuteira no tatame sem que o sensei visse. Mas, logo foram tocados dali pelo mestre, que estava perdendo sua concentração com tamanha arruaça juvenil. Desceram, então, as escadas, meio cabisbaixos, um pouco bravos, mas, ao mesmo tempo, achando graça na arte aprontada.

Muitos dirão a esses garotos, ao longo de suas vidas, que não conseguirão nada, que não serão ninguém. Porém, o que é mais forte que a imaginação de uma criança? O que é mais forte do que sua ambição em conseguir ser o que querem ser?

Todos agora se imaginavam dando chutes e socos, vendo o suor pingar da própria testa no tatame enquanto faziam flexões. Nas suas mentes, se viam chutando e destruindo sacos de pancada, usando luvas, sendo fortes. Nenhum deles sabia nada sobre lutas, mas todos já tinham visto alguma vez algo na televisão. Todos sabiam que, se fosse para a TV, podia-se ganhar um tipo de cinto, grande, brilhante, que dizia que você era o cara mais forte do mundo. Estando lá, você seria entrevistado por jornais internacionais, falaria em outras línguas, ganharia o cinturão. Seria reconhecido como uma grande pessoa, como celebridade, como alguém em quem se inspirar.

Nenhum deles saiu dali de cabeça vazia. Naquela noite, aqueles quatro garotos deixaram de ser apenas garotos da periferia. Naquela noite, todos eles, eram os homens mais fortes do mundo.

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